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UM POSTE DE LUZ NA ESCURIDÃO - (CONTO MINEIRO) - Ele andava o mais rápido possível, com receio do que poderia ser. Podia ser até um fantasma, segundo ele contava. Ao chegar debaixo deste poste de luz, ele parava para esperar quem vinha passar por ali e ele saber quem seria. Porém, os passos não se faziam ouvir quando ele parava, e ninguém passava por ele...




UM POSTE DE LUZ NA ESCURIDÃO
Quando eu era criança, meu avô que tinha vindo de Portugal quando ainda era um bebê, pois seu pai (meu bisavô, que eu não cheguei a conhecer) em busca de novas oportunidades de trabalho, veio para o Brasil para trabalhar na Rede Mineira de Viação; gostava de contar histórias que aconteceram com ele quando era jovem.
Dentro da Rede Mineira de Viação foi construída uma Vila Operária para seus funcionários. Esta Rede Mineira de Viação ficava ilhada pelo Rio Itapecerica e pelas linhas do trem. Meu avô sempre contava algumas histórias de quando ele era jovem e morava nesta Vila Operária que ficava dentro das Oficinas da Rede Mineira. Quando meu avô ia contar suas histórias, e fazia isso sempre a noite, eu e algumas outras crianças que também moravam na Vila Operária, corríamos para não perder nenhuma parte de suas história que a gente acreditava ter realmente acontecido com ele. Uma de suas histórias falava sobre a noite, ter que passar por uma longa trilha que tinha apenas um poste de luz.
INTERIOR DA REDE MINEIRA DE VIAÇÃO
CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO NA VILA OPERÁRIA DA REDE MINEIRA DE VIAÇÃO
Aqui em nossa cidade tinha apenas uma rua, que ligava a igreja da Catedral do Divino Espírito Santo até a rua da Vila Operária que ficava dentro da Rede Mineira de Viação. Alem desta rua tinha alguns caminhos passando em meio ao mato que a gente chamava de "Estradinha"
Naquela época a eletricidade era obtida pela usina da própria Rede Mineira de viação, construída no rio Itapecerica.
Os postes de luz eram os trilhos da ferrovia, fincados no chão, bem no meio desta rua que vinha da Catedral até as oficinas da Rede Mineira, assim iluminava os dois lados, embora as lâmpadas fossem incandescentes e geralmente de 100 velas.
As estradinhas de que falei, geralmente levavam ate a igreja do Santuário, que ficava bem distante desta rua da Vila Operária, até a praça que ficava em volta deste Santuário e ate as Obras Sociais da Igreja, que ficava bem no alto do morro já bem distante.
Nos finais de semana, as pessoas iam à missa no Santuário e depois da missa iam até esta Praça chamada, do Santuário. Lá, os homens circulavam pela praça no sentido horário e, as mulheres no sentido contrário. Esta era a paquera deles na época. Homens circulando para um lado e as mulheres para o outro. Era só flertar, pois pegar na mão não podia beijar seria uma ofensa grave.
A RUA QUE VAI DA CATEDRAL DO DIVINO ESPÍRITO SANTO ATÉ A REDE MINEIRA DE VIAÇÃO
Então, com a gente sentado em sua volta, meu avô começava a contar suas histórias de quando era jovem.
Meu avô, como a maioria dos homens solteiros da época, ia até esta praça ficar “circulando” em sua paquera.
Na volta, geralmente lá pelas 20 horas, 21 horas já seria madrugada, ele vinha por uma destas estradinhas, que trazia até a Vila Operária que era onde morava.
Nesta estradinha, pouco antes da entrada da Vila, havia um único poste de luz.
Quando meu avô vinha a noite, sozinho, sempre escutava passos que parecia ser alguém o seguindo, e olhando para trás, jurava que via um vulto de homem todo de preto. Ele andava o mais rápido possível, com receio do que poderia ser. Podia ser até um fantasma, segundo ele contava. Ao chegar debaixo deste poste de luz, ele parava para esperar quem vinha passar por ali e ele saber quem seria. Porém, os passos não se faziam ouvir quando ele parava, e ninguém passava por ele. Depois, ele saia rapidamente até chegar em sua casa.
O SANTUÁRIO DE SANTO ANTÔNIO, ONDE DEPOIS DA MISSA, OS FIÉIS IAM PARA A PRAÇA DE MESMO NOME PAQUERAR
Ele nos dizia, quando nos contava estas histórias, que aquele era o homem do saco, que pegava os meninos que desobedecesse a sua mãe.
Claro que depois de ouvir esta historia, sair à noite nem pensar, mesmo porque, quando a gente ainda era menino, existiam ainda os postes de luz no meio da rua e aquele único poste de luz da estradinha.
Ele contou uma vez, que já depois de casado, passando por este poste de luz, viu um vulto e tinha certeza que era o tio dele, que ele tinha visto apenas em fotos, pois este tio dele morava em Portugal e nunca tinha vindo ao Brasil.
Aconteceu que depois de três meses, (era o tempo que se levava para receber uma carta enviada de outro país) chegou uma carta de Portugal, dizendo que este mesmo tio dele, tinha falecido naquela data em que ele afirmava tê-lo visto debaixo do poste de luz.
A história de que havia um homem do saco que pegava as crianças desobedientes, durou na minha imaginação até os meus 10 ou 12 anos aproximadamente.
O POSTE DE LUZ DA ESTRADINHA
Hoje, não há mais poste de trilhos, pois a Cemig chegou e retirou aquele marco do suposto fantasma da Vila operaria.
Ao pavimentarem as ruas da Vila Operária, “colocaram no saco” aquele homem do saco, caçador de crianças desobedientes, que acabou por ficar somente no nosso imaginário.
A vila operária deixou de existir, ou melhor, deixou de ser dentro da Rede Mineira de Viação, pois construíram um muro separando a empresa da Vila. Até o nome deixou de ser Vila operária e passou a se chamar Bairro Esplanada. Mas ainda continua ilhada pelo Rio Itapecerica e as Linhas do trem. E aquelas estradinhas acabaram por serem abertas e se tornando ruas pavimentas e toda iluminada.
Esta é uma das muitas histórias que meu avô contava de quando ele era jovem e a noite, tinha que passar pela estradinha do poste de luz.


Conto de propriedade de Thymonthy Becker / Baseado em fatos reais / 

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