Pular para o conteúdo principal

EU ME LEMBRO - Uma história que poderia ser a sua (Literatura)




EU ME LEMBRO...
AUTOR: THYMONTHY BECKER 
ANO: 2016
REVISÃO DE TEXTO / LUCIANA PEIXOTO SILVA
FOTOS / FERNANDO BECKER 
CAPA / NATHÁLIA BECKER
foto - Thymonthy Becker
EU ME LEMBRO...
1º - CAPÍTULO
Divinópolis, interior das Minas Gerais - 1987 / setembro / 12 h
Saímos correndo. Eram assim todos os dias ao final da aula. Saímos gritando pela felicidade de voltar para casa, mesmo sabendo que, ao chegar lá, sentiremos falta da escola e dos colegas.
Sim, porque é na escola que podemos contar aos colegas e para a professora tudo que de bom, de interessante e até de ruim, nos aconteceu depois que voltamos para casa.
Eu, como todos os dias, vou caminhando juntamente com alguns colegas que moram na mesma direção de minha casa. Vamos discutindo sobre as contas de matemática, o que acertamos o que erramos, e as palavras do ditado que não soubemos escrever. 
Sempre tem um que diz não ter errado nada. Todos ficam sempre o ouvindo e disputando andar ao seu lado, afinal, ele é o maior da turma e, pra gente, é o que sabe mais mesmo. Sempre tem um que duvida. Aí eles discutem um pouco, mas o que sabe tudo, sempre acaba convencendo de que ele realmente sabe tudo.
Alguns apenas ouvem, eles quase não dizem nada, parece que vêm acompanhando a gente só para não irem sozinhos. 
Depois de andarmos um pouco, um a um vão tomando seus caminhos. Alguns, ao darem tchau, saem correndo, parecem que não gostam de andar sozinhos. Outros vão caminhando calmamente, parecendo não quererem voltar logo para casa. Até eu ficar sozinho, pois eu moro na última casa, da última rua, que fica além dos trilhos da ferrovia.
foto - Thymonthy Becker
2º - CAPÍTULO
Como todos os dias, tenho pressa em chegar em casa para abraçar o Link, que é um cachorro de pelo amarelo e fofinho que eu ganhei quando tinha oito anos. Ele fica vigiando a empoeirada ruazinha que leva até a minha casa, mas que em dias de chuva fica cheia de lama, e quando me vê, vem correndo em minha direção, pula nas minhas pernas, suja meu uniforme com suas patas, pois está sempre correndo atrás dos pequenos leitões lá no chiqueiro. O chiqueiro tem um buraco numa das tábuas que o cerca, por onde o Link entra, e os leitõezinhos saem, fugindo dele.
O Link pula em meus braços, lambe meu rosto, fica pulando na minha frente, balançando o rabo. Parece que ele está sempre com saudades de mim. 
Na escola, eu fico com saudades dele também. Tenho até o nome dele escrito na primeira folha do meu caderno. O nome dele, do meu pai, da minha mãe e dos meus irmãos. O do meu pai é o primeiro, depois o do Link e depois o da minha mãe e do meu irmão e, por último, o da minha irmãzinha.
Eu escrevo muitas coisas na capa do meu caderno. Até o nome da minha professora, que eu acho ela muito bonita, mas não contei isto para ninguém, escrevi nele também. 
Minha mãe às vezes me xinga, dizendo que eu estou rabiscando todo o caderno e que ela não vai comprar outro.
E como todos os dias, minha mãe briga comigo. Por ter sujado o uniforme, por estar com o Link nos braços, por ter que tomar outro banho e talvez até outro mais tarde, e para ela, eu era o culpado da conta de luz ser tão alta. Ela sempre diz que eu nunca cheguei limpo em casa, que eu sou uma peste e devo ser o mais porco da escola. E que não ia mais lavar meu uniforme, que eu ia ao outro dia de uniforme sujo. Mas eu nunca achava que meu uniforme estava sujo, por isto não me importaria de ter que ir com o uniforme do jeito em que estava.
Vou caminhando o mais rápido que eu posso aos tropeços na mochila, que sempre vai tocando o chão, já que eu só a carrego, segurando-a pela mão. Minha mãe sempre me xinga, dizendo que a mochila vai rasgar, que vou perder o material, que eu não sei carregar mochila. Ela fica dizendo que a culpa é do meu pai, que ele não me educou direito, que me deixa fazer o que quero que eu, merecia apanhar, mas ele nunca me bateu. Eu chego nos trilhos da ferrovia.
foto - Thymonthy Becker
3º - CAPÍTULO
Paro ali, pensando no meu cachorro, naquela semente de jabuticaba que eu plantei na latinha. Meu pai sempre dizia que a semente de jabuticaba só nasce se um passarinho comer a semente e depois fizer o cocô no chão. Por isto, ele jurava que aquela semente que plantei não ia nascer. Mas ela já tem o tamanho de meu dedo, e eu planejo plantá-la bem em frente de casa. Meu pai diz que ela levará 40 anos para dar jabuticabas, e que talvez ele nunca irá chupar daquelas frutas.
Todos os anos, quando é época de jabuticabas, vou com meus pais na casa da dona Geralda, que fica no caminho para o 48. É uma estradinha de terra bem estreita, lá só passa carro de boi. Esta estrada fica ao lado da linha da locomotiva. 
Na casa da dona Geralda tem muitos pés de jabuticabas, uns bem grandes, outros são bem pequenininhos. A maioria deles fica ao lado de um riacho que passa no quintal da dona Geralda. Mas ela não deixa a gente subir no pé que tem muita jabuticaba. A gente só pode subir nos pés que tem fruta só lá em cimão. A gente pode chupar o tanto que der conta, mas meu pai dá dinheiro para ela, eu já o vi dando o dinheiro uma vez. Acho que é para pagar as jabuticabas que a gente chupa.
Teve uma vez que eu subi no pé e fiquei chupando jabuticabas lá em cima. Eu não engulo o caroço, porque teve outra vez que minha mãe me deu remédio para eu ir ao banheiro, porque não conseguia fazer cocô de jeito nenhum. Ela disse que era por causa das sementes de jabuticabas que eu engolia. Daí nunca mais eu comi as sementes. Neste dia, eu vi uma jabuticaba bem grandona, estava difícil de pegar, eu fui tentando até que caí lá de cima. Quando caí, minha barriga raspou num galho que estava cortado e que me cortou um pouco. Não lembro o que aconteceu depois. Mas eu fiquei com uma cicatriz na minha barriga.
Depois que a gente chupava bastante jabuticaba, meu pai falava que era para a gente encher uma vasilha, para levar para casa. Então a gente enchia uns caldeirões grandes que minha mãe tinha, e que a gente levava para trazer jabuticabas mesmo.
Sempre na volta, a gente vinha chupando as jabuticabas do caldeirão. Sempre minha mãe dizia que eu parecia esfomeado, não parava de comer. Mas quando a gente chegava em casa, eu continuava chupando jabuticabas. Engraçado que a vontade de chupar jabuticabas, só passa quando elas acabam mesmo.
foto - Thymonthy Becker
4º - CAPÍTULO
E como todos os dias, antes mesmo de entrar em casa, vou ao galinheiro ver os dois pintinhos da galinha carijó, que nem penas têm ainda, e que meu pai disse serem meus. 
Meu pai colocou 13 ovos para a galinha carijó chocar. Eu ia todos os dias, tirava a galinha do ninho, e ela não gostava quando eu fazia isto, ficava tentando me bicar, se arrepiava toda, mas eu tirava assim mesmo. Eu queria ver se já tinha nascido os pintinhos. Meu pai sempre dizia que ia demorar muito para os pintinhos nascerem, mas eu sempre ia ver assim mesmo. Eu queria ver mesmo era eles saindo de dentro do ovo. Na escola, eu já até estudei isto, eu vi nos desenhos do livro como eles nascem. Eu queria ver se era daquele jeito mesmo, não que eu não acreditasse no que estava no livro, eu sei que é verdade, porque a professora bonita disse que era daquele jeito mesmo. Eu queria ver eles nascendo mesmo. Mas os dias foram passando, eles nunca que nasciam, ate que meu pai disse que já teriam que ter nascido. Depois meu pai falou que eles não iriam nascer, porque os ovos deveriam ter gorado. Minha mãe ficou falando que a culpa era minha, porque eu tirava a galinha do ninho, que eu destruía tudo, que eu não fazia nada certo. Mas meu pai me disse, quando minha mãe não estava perto, que isto acontecia mesmo, e não era culpa minha não. Ele disse que ia comprar dois pintinhos e colocar no ninho, para a galinha carijó pensar que era dela e, assim, criar os dois. Ele comprou no sábado os dois pintinhos. Colocou no ninho à noite. Aí disse que eles eram meus, que era para eu cuidar muito bem deles. Engraçado que eles parecem saber disto, pois eu chego no galinheiro e eles vêm correndo em minha direção, comem na minha mão os pedacinhos de milho que eu quebro batendo o martelo de meu pai, porque eles são muitos pequenos e não conseguem comer os milhos inteiros. Depois, eles ainda sobem na minha perna e pulam no meu ombro, abrindo as pequenas asinhas para se aquecerem no sol. Eu fico ali com eles até minha mãe gritar, me chamando para o almoço.
E como todos os dias, antes mesmo de entrar para o almoço, eu vou até o pé de flamboyant, que plantei há muito tempo na porta de casa. E que já está até grande. Eu achei a semente quando estive na Praça do Santuário, no domingo, passeando com meu pai. Foi ele que me disse que aquela semente era daquela árvore bem grande do centro da praça. Por isto eu quis plantar a semente bem em frente de casa, para fazer sombra na rua e assim, quando a gente estivesse jogando pelada e ficasse muito cansado, ia descansar debaixo dela.
Mas eu fico com medo do pai cortar ela, porque quando venta muito, saem muitas folhas que são bem pequenininhas e caem no nosso alpendre, e são difíceis de varrer. Aí minha mãe grita dizendo que vai mandar o meu pai cortá-la assim que ele chegar. Mas quando ele chega, acho que ela esquece, porque minha árvore está bem lá em frente de casa.
Foi a primeira árvore que plantei, e é com ela que eu converso às vezes. Eu sei que árvores não falam, nem ouvem, mas eu gosto de ficar falando com ela assim mesmo. Quando não tem nenhum amigo meu na rua, eu fico lá com ela, conversando.
foto - Thymonthy Becker
5º - CAPÍTULO
E como todos os dias, eu então entro para tomar meu banho. E minha mãe, como todos os dias, fica gritando para eu não demorar muito, que a luz tá cara. Engraçado que eu não acendo a luz para tomar banho, e eu também nunca quebrei uma lâmpada lá em casa. Eu até gosto de ficar brincando com um navio de plástico que meu pai me deu, enquanto tomo banho. Mas minha mãe não pára de gritar para eu sair logo. 
E depois, enfim, o almoço. Claro que, se dependesse de mim, eu comeria arroz, feijão e carne. Quando é sábado, ela faz batata frita. Eu gosto mais de batata frita que de arroz, mas ela diz que só dá pra comprar batata no sábado. Acho que nos outros dias não tem para vender. Minha mãe insiste que é preciso comer aquelas folhas verdes e um outro trem que ela faz lá, que eu nem sei o que é. Eu não gosto daquelas folhas, porque têm um gosto bem amargo e se eu pudesse, levava tudo para as galinhas. Elas é que gostam muito de comer aquelas folhas. Até brigam por elas, quando sobra alguma folha e meu pai pede para eu jogar lá no galinheiro. Mas minha mãe todo dia diz que é preciso comer aquelas folhas, para eu não adoecer. Então, com medo de ficar doente – porque minha tia vai sempre no hospital, e minha mãe vive dizendo que ela é muito doente e precisa ir sempre no hospital, e com medo de ficar doente como ela, eu acabo comendo aquelas folhas que minha mãe coloca em meu prato. Tem também um tal de angu que minha mãe faz e eu também não gosto. Meu pai sempre fala assim “come angu gente, senão não vai”, e fica rindo, mas eu acabo tendo que comer.
foto - Thymonthy Becker
6º - CAPÍTULO
E como todos os dias, depois do almoço, vêm o dever. Quem me ajuda no dever é minha mãe. Tem dia lá na escola, no final da aula, que a professora diz que não vai dar tempo de passar dever, que é só para a gente estudar a matéria em casa. Eu fico mais contente quando isto acontece. É que minha mãe não sabe explicar como a professora. Daí fica me xingando, dizendo que não entra nada na minha cabeça, que eu estou estudando pra ser burro, que não sabe a quem eu puxei. E eu não lembro de ter puxado ninguém, só se for o Tarzan, que tem este apelido porque quando ele fica abrindo a boca com sono, fica gritando ao mesmo tempo. Um dia ele estava pisando em cima do meu caderno, que tinha caído no chão, acho até que ele não tinha visto. Mas eu não o puxei, eu só empurrei. Eu queria ser tão inteligente quanto minha mãe. Ela sabe tudo de cór e nem precisava ver na apostila. Ela faz a conta certinha e nem olha no livro como é que se faz. A professora sempre pediu à gente para pedir a ajuda da mãe na hora do dever, e eu preferia que fosse do meu pai, mas ele está sempre trabalhando na hora que eu faço o dever. Eu acho que deveria era ter dever de escola, e não de casa. Assim a gente teria que fazer ele na escola com a ajuda da professora que ensina tudo sem xingar a gente, e quando a gente erra, ela chama a gente de querido. Diz que não é daquele jeito e ensina de novo. Minha mãe nunca me chamou de querido, ela me chama muito é de peste. Mesmo quando eu conseguia terminar o dever, e olha que minha mãe, mesmo me xingando muito, fazia algumas contas pra mim. Eu não consigo fazer algumas contas de matemática, a professora já me ensinou algumas vezes, mas para mim, é sempre difícil e eu não consigo fazer de jeito nenhum. Aí eu vou brincar lá fora, isto depois de minha mãe dizer que não é para voltar sujo e para tomar conta de meu irmão que é um pouco menor que eu. Ele ainda não está na escola, meu pai falou que no outro ano que vem ele vai entrar. Às vezes, quando estou indo para a escola, ele fica querendo ir comigo, mas minha mãe não deixa. Às vezes ele chora querendo ir, mas nunca foi comigo à escola e minha mãe nunca xingou ele por ficar chorando muito. Já minha irmã, que é bem menor ainda, fica sempre com minha mãe, nunca ficou sozinha comigo lá fora. Ela é menor que meu irmão, menor que eu. Ela custa a andar e fica mais num cercado que tem lá na sala. Ela é chorona demais, toda hora tá chorando e só pára quando minha mãe fica com ela no colo.
foto - Thymonthy Becker
7º - CAPÍTULO
E como todos os dias, quando eu vou brincar lá fora, levando meu irmão, a gente joga pelada. E sempre meu irmão quer jogar também. Mas ele é pequeno, não dá conta de correr atrás da bola e a única vez que ele tentou jogar, ficou foi atrapalhando a gente. Mas para ele não ir chorar para minha mãe e com isto eu ter que ir para dentro, a gente deixa ele ser “carta branca”, quando a bola vai muito longe, ele é quem vai buscar. No começo, ele busca todas as bolas. A gente fica gritando para ele ir depressa, mas ele sempre vai devagarzinho. Depois ele começa a brincar sozinho, sentado ali em baixo do flamboyant que plantei, aí diz que não vai buscar mais a bola. Não tem jeito, outro tem que ir porque ele não vai de jeito nenhum. A gente joga pelada em frente a casa do meu pai, porque ali não passa carro. Nossa casa é a última da rua e depois dela só tem mato. 
Mas de vez em quando o carro da polícia aparece vindo na rua, aí sai todo mundo correndo para suas casas. Eu vou arrastando meu irmão. Todos aqui têm medo da policia, minha mãe disse que se eles pegarem a gente jogando bola toma a bola da gente e o pai tem que ir lá buscar. A bola é minha, foi meu pai quem me deu no natal. A polícia nunca pegou uma bola minha, a gente sempre corre quando eles vêm.
Nem sempre a gente joga pelada; quando a gente entra em férias, na época que tá fazendo frio, a gente só solta papagaio. Eu sei fazer papagaio sozinho, meu pai só arruma as varetas pra mim e faz a barbela. Eu gosto de papagaio com bambulinhas de todas as cores. Meu pai me dá o dinheiro para eu comprar a folha de papagaio no armazém do Pedro surdo – ele é chamado assim porque ele não escuta nada. A gente tem que mostrar com o dedo o que a gente tá querendo, outras vezes a gente mesmo que vai pegar. Fica ali pertinho de casa e todos só compram folha e as linhas ali. Ele tem ali folha de tudo quanto é cor e a linha 010, que é a melhor de todas. Eu que corto as folhas com a tesoura que tem no meu material de escola. Depois, com a cola que uso na escola, eu colo as varetas que meu pai faz pra mim. Meu pai não me deixa tentar fazer as varetas, porque tem que ser com a faca. Ele tem medo que eu possa me machucar. Depois eu faço as bambulinhas bem compridas. Eu não coloco rabiola como os outros meninos daqui, eu sempre coloco bambulinhas, pois assim, o papagaio da buscada. O tomador, no que eu enrolo a linha, meu pai que fez para mim. Com ele é fácil trazer o papagaio de volta, porque às vezes a gente laça os papagaios da outra rua, e aí, tem que puxar rapidinho senão a gente perde o papagaio. Eu já lacei muitas vezes, mas não ganhei todos não, mesmo com o tomador, eu já perdi muitos papagaios. Mas eu não me importo não, eu faço outro no lugar daquele que perdi. Quando está ventando é fácil fazer ele subir, é só ir dando linha no tomador até ela acabar, e ficar vendo o papagaio coroando lá no céu. 
Quando não tem vento, eu fico cansado de tanto correr de um lado para outro, mas ele não sobe de jeito nenhum. Às vezes ele enrola no fio do poste ou na antena de televisão. Meu pai diz que não pode deixar enrolar no fio do poste, porque a gente pode levar um choque. Quando ele enrola na antena do Tuniquinho, que tem a casa ao lado da do meu pai, este Tuniquinho fica xingando, chamando a gente de moleque, dizendo que vai contar para nossos pais, que está cansado de tirar papagaio da antena e fica falando um tempão.
Quando ele fica xingando a gente, todos ficam sentados na beira do passeio, e ninguém fala nada. Todos aqui têm medo dele porque ele é muito bravo. A melhor hora para soltar papagaio é quando o sol está indo embora, porque ele puxa o vento. Pena, que escurece rápido e não conseguimos soltar papagaio no escuro. De noitinha, quando a gente sai para ficar lá fora com a turma, a gente fica falando das laçadas, cada um dizendo que seu papagaio é o mais bonito, que deu linha toda, dos que ficaram coroando e dizendo que no outro dia fará outro mais bonito e maior. Uma folha que a gente compra lá no Pedro surdo dá para fazer quatro papagaios. 
Uma vez meu pai fez um para mim, de uma folha inteira. Ele ficou super grande e quase não conseguiu subir. Tinha que ter muito vento para ele subir.
foto - Thymonthy Becker
8º - CAPÍTULO
Muitas vezes, quando saímos para brincar lá fora, nem brincamos. Ficamos ali na porta da minha casa, só conversando, contando o que se passou na escola, das notas que tiramos nas provas, do dever de casa que a gente fez e que a professora sempre encontra alguma coisa errada, eu dizendo que a professora é a mais bonita da escola e que, se ela quisesse, até namoraria ela, quando eu ficasse grande. Todos riem quando eu falo isto, dizendo que vão contar para ela. Eu digo que, se falarem, nunca mais serão meus amigos. 
E a gente vai falando do que vai ser quando crescer. Eu sempre digo que eu quero ser plantador de árvore. Eu sempre gostei de árvore. Gosto de ver ela pequenininha e depois de um tempo, já tá grande. Já plantei muitas sementes, mas que eu sei que nasceu foi só a flamboyant, a jabuticabeira e a goiabeira que tem lá atrás da casa. Mas ela nasceu sozinha, porque não plantei nada lá. Meu pai disse que goiabeira é assim mesmo, nasce sem ninguém plantar.
Minha mãe sempre grita, quando me chama para tomar café da tarde. Eu sempre respondo “tô indo”. Mas continuo com a turma da rua, até que ela grita novamente, dizendo que não espera mais. Aí eu entro, senão ela fica muito brava. Logo que anoitece, estamos nós lá na rua novamente, desta vez, brincando de “rouba bandeira” ou “pé no bete”. Mas o que eu gosto mesmo é o “passar anel”. Quando a gente descobre com qual menina o anel está, a gente ganha dela um beijo. A gente brinca também de chute no gol. O muro da minha casa que é o gol. O Helder, que sempre fica no gol, ele não gosta de ficar driblando e chutando no gol. Eu não sou muito bom de fazer gol não. Tem vezes que nem gol consigo fazer, o Helder é bom e pega quase todas as bolas que nós chutamos no gol. Mas à noite, a gente não fica muito tempo na rua, minha mãe me chama às 8 horas da noite, dizendo que já é muito tarde.
foto - Thymonthy Becker
9º - CAPÍTULO
Lá em casa não tem televisão ainda, e quando minha mãe deixa, eu vou à casa da minha tia que mora ali pertinho. E fico vendo televisão lá até as 10 da noite, quando minha tia fala que está na hora de eu ir embora. Entre a casa de meu pai e da minha tia, tem uma casa de uma mulher velhinha, que mora sozinha. Eu não sei o nome dela, mas todos a chamam de Xuxinha. Os meninos maiores aqui da rua dizem que ela é uma bruxa. De dia, ninguém tem medo dela. Ela costuma ficar na janela da casa dela, então a gente começa a gritar “Xuxinha, sai da janela!”, que é para ver se ela vai embora. 
Acho que ela não liga da gente falar assim, pois nunca reclamou com a gente. Mas quando chega a noite, ninguém passa na porta da casa dela se ela estiver na janela. Quando eu venho da casa da minha tia, venho correndo o mais que posso, com medo da Xuxinha e de algum fantasma, porque dizem que ali tem muito fantasma à noite. Passo pelo portão da minha casa, correndo o mais que posso, porque tenho medo de olhar para o jardim, que é muito escuro, e ver algum fantasma. Eu prometo a mim mesmo que nunca mais vou à casa da minha tia à noite, para não ter que passar por este medo novamente. Mas no outro dia já esqueci tudo e sempre volto lá.
foto - Thymonthy Becker
10º - CAPÍTULO
Quando chega sábado, meu pai às vezes vai pescar lá no 48. Ele vai de bicicleta pela linha, porque ali não tem morro. Eu quase sempre vou com ele. Minha mãe prepara um lanche para a gente comer quando estive lá, e o lanche da minha mãe é muito gostoso. A gente sai cedinho, mais cedo que quando eu vou para a escola. Não demora muito pra gente chegar lá, mas antes, meu pai pára no caminho, para eu descer da bicicleta e esticar as pernas. Às vezes, quando eu saio da bicicleta, quase não consigo ficar em pé, as pernas parecem que não querem esticar. Sempre que meu pai pára, eu vejo uma igrejinha bem longe. Eu sempre acho que é a igreja lá do meu bairro, mas meu pai disse que é outra igreja e que dali não dava para a gente ver a do meu bairro. Mas ela é igual e para mim, é a nossa igreja mesmo. Eu sempre falo com meus amigos que vejo a igreja lá de longe. Alguns, quando eu vou pescar, dizem que vão ficar na escadaria da igreja, para eu poder ver eles de onde eu estiver. Mas eu nunca os vi, nem as escadas eu consigo ver direito, ficam muito longe. Quando a gente chega no 48, meu pai vai logo pescando. Tem uma pedra grande ali, que ele senta em cima e fica lá um tempão. Eu fico brincando na areia que tem ali na beira do rio. Depois meu pai vem e a gente entra na água para nadar. Eu não sei nadar, fico ali só na beirada junto com meu pai. É muito bom ficar dentro da água. Às vezes eu vejo até uns peixinhos bem pequenos que ficam nadando ali na beirada também. Meu pai disse que é filhote de piaba. Mais tarde, a gente sai da água para lanchar. Depois que a gente nada, dá uma fome grande na gente, daí eu como todo o lanche que minha mãe colocou para mim. Embora no início eu gostasse de ir pescar com meu pai, hoje acho que o tempo ali demora a passar; quando a gente está voltando, parece que nunca vai chegar em casa, e eu só chego em casa de tardinha.
foto - Thymonthy Becker
11º - CAPÍTULO
Mas quando meu pai vai pescar na barragem do Cajuru, eu gosto, porque nós vamos de trem até Carmo do Cajuru.
O misto, é assim que meu pai chama a locomotiva que vem com um monte de vagão, sai antes de clarear, então a gente vai para a estação quando ainda está bem escuro. Quando chego na estação, já tem muitas pessoas lá. Eu fico sentado no banco esperando a Maria fumaça, e quando ela aponta lá longe, apitando e soltando aquele monte de fumaça, eu fico rindo o tempo todo, porque acho que o trem mais gostoso que tem é andar de trem. Quando eu entro no vagão, vou correndo para a janela, antes que todas fiquem ocupadas. Andar de trem, sem ser na janela, não tem graça nenhuma. Algumas vezes, não tinha lugar na janela e tive que ir sentado no banco do meio. A gente quase não vê nada. A viagem até Carmo do Cajuru não demora muito; por mim, podia ficar o dia inteiro dentro do vagão. E é legal ver o trem fazendo uma curva. A gente pode ver a maria-fumaça lá na frente. Ver as árvores passando correndo, e eu fico tentando contar quantas são, mas nunca consigo. Algumas árvores parecem estar bem pertinho da linha e o trem parece que vai atropelar ela. Eu vejo muitas vacas lá no pasto, algumas no alto do morro, longe, quase que não dá pra ver direito, outras ali pertinho da gente. A locomotiva passa e elas nem olham, acho que já estão acostumadas com ela passando ali todos os dias. De longe a gente vê a fumaça saindo da chaminé de alguma casa. Quando o trem passa perto dessas casas, os meninos correm ao lado dela, parecem que estão apostando uma corrida. Que eles sempre perdem. Os homens e as mulheres na porta de suas casas ficam abanando a mão para gente. Eu não os conheço, mas abano a mão para eles também. Eles devem ser muito felizes, pois estão sempre rindo quando a gente passa. Alguns ficam na porta com um caneco tomando café. Aí, me da vontade de tomar café também, mas a gente só vai tomar café mesmo quando chegar em Cajuru. Quando o trem passa pela ponte de ferro, aí eu sei que está chegando em Cajuru. Meu pai sempre diz que demora muito, eu acho que sempre chega rápido demais. Ali na estação mesmo, tem um barzinho onde a gente toma café. Eu sempre como pão de sal com manteiga. É gostoso tomar café no barzinho, é diferente do que a gente bebe em casa. Depois do café, a gente tem que ir a pé até a barragem, que é bem longe. Mas eu nem vejo a hora passar, porque vou brincando, comendo milho de grilo, que é uma frutinha que tem no meio do mato e meu pai disse que é muito gostosa, e é mesmo. Tem umas outras frutinhas que eu como também, mas não sei o nome delas. Esta estrada que vai até a barragem é bem larga, mas tem muita poeira quando passa algum carro. Algumas vezes em que a gente está nesta estrada, alguém que passa de carro pergunta se a gente queria uma carona. Aí meu pai aceita e para mim não tem graça, pois eu gosto de ir pela estrada andando. Mas a maioria das vezes a gente ia a pé mesmo. Meu pai fica o dia todo pescando, ele é bom nisto, porque pega muito peixe. O almoço, ele trazia numa vasilha, o meu e o dele. Quando eu almoçava ali com meu pai, muitas vezes eu não comia aquelas folhas que minha mãe colocava. Meu pai sempre dizia que só daquela vez eu não precisava comer. Mas a maioria das vezes que estava ali na barragem, eu não comia as folhas. Meu pai deixava eu entrar na água ali na beirada, tinha que ficar na beirada mesmo, porque eu não sei nadar. Algumas vezes, meu pai me ensina a pescar. Eu fico lá tentando, mas, na maioria das vezes, o peixe come a minhoca que meu pai coloca no anzol e eu nem percebo. Mas já consegui pegar algumas piabas, bem pequenas. Só que eu sempre fico com dó delas e jogo de volta na água. A maior parte do tempo ali eu passo brincando mesmo. À tardinha, antes do sol ir embora, meu pai arrumava tudo para a gente voltar. Quando a gente vem embora, eu tenho que andar aquele caminho todo a pé de volta, aí fico eu desanimado. No começo é até legal vir andando, mas o sol vai indo embora e aí vai ficando ruim andar naquela estrada. Quanto mais a gente anda, mais meu pai fala que ainda tá longe. Às vezes, chego a pensar que a gente está no caminho errado. Nesta hora, eu bem que queria que passasse um carro ali para dar carona pra gente. Às vezes passa mesmo, mas a maioria das vezes não passa nem um. Quando anoitece mesmo, meu pai me mostra as luzes da cidade de Carmo do Cajuru, aí eu fico contente. Quando chegamos na estação, para pegar o trem de volta pra casa, fico muito desanimado quando o homem da estação diz que o misto está atrasado umas três horas. Eu fico ali na estação, olhando lá longe, de onde o trem vem, esperando ele aparecer. Eu costumo dormir ali sentando no banco, encostado em meu pai, só acordo com ele me chamando porque a Maria fumaça está chegando. Da viagem de volta não vejo nada, pois a faço toda dormindo.
foto - Thymonthy Becker
12º - CAPÍTULO
Na segunda-feira, quando chego na escola, vou logo contando para meus colegas tudo sobre a aquela sensação gostosa que é andar de trem, do tanto que eu andei a pé sem me cansar, dos peixinhos que peguei. Alguns não acreditam que eu tenha conseguido pegar peixe, mas aí eu falo para eles perguntarem para o meu pai se não é verdade. Mas a maioria fica é me perguntando sobre a viagem mesmo. Até a professora me pergunta como foi meu fim de semana, aí não pára de falar sobre andar de trem. Depois ela diz que está na hora de estudar, então eu só posso falar na hora do recreio e quando estou indo embora.
Eu não gosto do domingo. Parece um dia sem graça. Na oficina que tem aqui perto de casa, ninguém vem trabalhar. A gente não vê quase ninguém na rua. Nem o bar do Pedro surdo abre. Acho que ninguém gosta de sair de casa no domingo. Eu, quando vou lá fora, não vejo ninguém, só mesmo na hora da missa que tem na igrejinha aqui perto, que eu vejo gente passando. Depois, quando acaba a missa, também. Depois disto, parece que todo mundo entra em casa e não sai mais. Até muitos amigos meus, eu não vejo no domingo. A rua fica com mais silêncio ainda, a rede não apita. Quando não é domingo, ela apita na hora em que eu levanto para ir pra escola, na hora do almoço, depois do almoço e à tardinha também, quando a gente tá brincando lá fora. Nesta hora, os homens que trabalham na rede saem todos correndo. A gente até pára de brincar, fica esperando eles acabarem de passar. Alguns destes homens vão pra casa de bonde. O bonde é uma locomotiva que passa na porta de casa e vai até na estação da rede levando as pessoas que trabalham ali. A linha da rede passa em frente à minha casa, mas lá do outro lado da rua. Nós chamamos lá de 'o canto da linha'. Ali passa todos os dias de manhã e à tardinha, a maria-fumaça. Quanto nós estamos ali, a gente fica olhando ela passar e soltando aquele monte de fumaça. Mas ninguém fica muito perto dela não. A gente tem medo, e também meu pai fala pra gente nunca ficar perto dela. A gente sabe que ela tá vindo, porque ela vem apitando desde lá longe. Domingo parece que foi feito para todo mundo ficar dentro de casa. Mas eu não gosto de ficar dentro de casa o dia inteiro não. Eu fico brincando de bola, sozinho, lá no terreiro de casa. Meu irmão não sabe brincar de bola, ele só sabe chutar ela pra longe, daí eu prefiro ficar brincando sozinho. Mas é bem ruim brincar sozinho, eu gosto quando tem muita gente. Às vezes eu fico só sentado lá no terreiro, num canto do muro, na sombra, só olhando os passarinhos que vêm pousar ali perto, tem uns que entram no galinheiro e ficam comendo a comida das galinhas. Engraçado que as galinhas não acham ruim deles fazerem isto, porque nem ligam deles estarem ali. Tem hora que eu fico olhando as nuvens no céu. Elas formam cada desenho esquisito, às vezes, parecem bichos, outras vezes, plantas, e tem hora que não parece nada. De vez em quando elas passam bem rápidas, mas tem umas lá em cimão, que andam bem devagarzinho, nem parece que estão andando. Quando passa um avião a jato, é legal ver a fumaça que ele deixa riscando o céu. Eu fico olhando aquela nuvem feita estrada que ele deixa, até ver ela sumir toda. Eu não sei por que aquela nuvem desaparece e as outras não. Quando chega à hora do almoço, minha mãe grita me chamando. Eu já até sei o que vai ter, porque domingo a gente só come galinha. Acho que domingo não pode comer carne de vaca. Eu não gosto muito de galinha não. Eu fico com dó das galinhas que minha mãe mata todos os domingos. Mas meu pai diz que galinha é para isto mesmo, para colocar ovo e pra gente comer no domingo. Na janta, a gente come o que sobrou da galinha do almoço. Minha mãe só a esquenta.
foto - Thymonthy Becker
13º - CAPÍTULO
E todos os domingos, eu vou à missa no Santuário às 5 da tarde. A turma quase toda vai. Nós ficamos atrás da porta central, contando caso, falando baixinho, é claro. De vez em quando, uma destas mulheres que tem um pano na cabeça pede a gente para ficar calado. Aí dá uma vontade de rir, e não tem jeito: para parar de rir, só saindo de dentro do Santuário. Sempre que estou dentro da igreja, me dá uma vontade rir, nem sei de quê, mas fico rindo e não consigo parar. Quando a gente sai lá fora para rir, tem sempre uma pessoa que conhece a gente e diz que vai contar para nossa mãe que a gente estava fora do santuário. Aí a gente entra novamente e fica atrás da porta outra vez. Eu nem sei o que o padre fica falando. A gente só ouve mesmo quando ele dá a bênção no final da missa. Aí, nós saímos todos correndo e contando caso. Quando chego em casa, meu pai sempre pergunta se assisti à missa direitinho. Eu sempre digo que sim, mas sempre falo para ele que sai lá fora um pouquinho. Aí ele sempre fala que não pode sair da igreja no meio da missa. Eu sempre falo que não vou sair mais de dentro da igreja durante a missa. 
Todos os domingos, à noitinha, meu pai pega um coco da Bahia que ele sempre compra na feira no sábado de manhã. Ele e minha mãe sempre vão à feira no sábado. A feira é em frente à igreja que tem ali perto de casa. Ela vende um monte de trem. Tem muita galinha lá para vender, muitas alfaces, couves e até repolhos. Eu não gosto de nenhum desses trens. Também vende lá laranja, goiaba, muito biscoito. Eu já fui lá com meu pai algumas vezes. Fica cheio de gente comprando lá e todo mundo falando junto. É até legal ir lá na feira. Eu já ganhei goiaba, laranja e muito biscoito. Toda vez que meu pai comprava alguma coisa, o dono me dava um biscoito ou uma fruta. Mas eu gostava mesmo era de ver os pintinhos de galinha e os patinhos que tinham para vender ali. Ficava uma caixa grande cheia deles, eu agachava ali perto e ficava olhando eles piarem o tempo todo. Quando meu pai acabava de comprar, ele ia lá me buscar. Eu nunca ganhei um pintinho ali na feira. De vez em quando, vendia ali uma fruta que eu gosto muito, que é o articum. Quando tinha pra vender, meu pai sempre comprava para mim. Ela parece que tem uma areia lá dentro. Eu lavava para tirar esta areia e depois comia. Eu já plantei uma semente deste articum, mas até hoje não nasceu ainda. Meu pai falou que ela nasce só no meio do mato. Aí, domingo à noitinha, meu pai pegava este coco da Bahia e partia em um monte de pedaços. A gente sentava lá fora, no portão de casa, e ia comer coco da Bahia. Ficavam lá fora eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos. Minha mãe cortava uns pedaços bem pequenininhos para minha irmã. É porque minha irmã só tinha quatro dentes na boca e não dava conta de mastigar. Eu comia meu pedaço e sempre pedia outro para o meu pai. Eu gosto muito de comer coco da Bahia. A gente ficava ali mais de noite. Minha irmãzinha dormia no colo da minha mãe, ela sempre dorme quando fica de noite.
Meu irmão também se encosta à minha mãe e dorme ali sentado. Eu fico acordado o tempo todo. Não fico com sono. Mas aí minha mãe fala que tem que ir pra dentro, porque já estava caindo sereno e podia fazer mal. Eu nunca vi este sereno que minha mãe falava. Acho que só quem é grande que pode ver o sereno.
foto - Thymonthy Becker
14º - CAPÍTULO
Minha mãe é quem cuida da minha irmã pequena. Ela fica mais no colo da minha mãe, quando está acordada, porque ela chora muito. Tem um cercado na sala, em que minha mãe coloca ela, quando precisa fazer o almoço, lavar roupa ou arrumar casa. 
Minha mãe coloca todos os brinquedos da minha irmã lá dentro. Ela fica lá brincando, mas quando ela começa a chorar, não tem jeito: só pára se pegar ela no colo. Minha mãe não gosta que eu a pegue no colo, disse que eu posso deixar ela cair. Uma vez, quando ela estava chorando e minha mãe estava tomando banho, eu fui lá e peguei ela no colo. Eu consegui segurar ela, mas ela continuava chorando. Quando minha mãe saiu do banho e me viu com minha irmã, começou a me xingar e beliscou meu braço. Doeu muito, e eu não queria chorar, porque meu pai sempre fala que homem não chora à toa, mas não consegui, comecei a chorar. Minha mãe me xingou mais ainda, mandando eu calar a boca e sair de perto dela. Eu fui lá pra fora, no terreiro. Mas a dor foi passando e depois eu até já tinha esquecido do beliscão que ela me deu. Acho que meu pai tem razão, a gente não precisa chorar, porque a dor sempre passa rapidinho. É minha mãe também que faz nosso almoço, o jantar, arruma a cozinha, e muitas vezes meu pai ajuda ela a arrumar a cozinha. Ele enxuga as vasilhas e os talheres para minha mãe. É minha mãe também que lava a minha roupa, me chama para ir para a escola, me arruma para ir à missa. Ela esta sempre xingando, dizendo que a vida dela é só trabalhar, que não tem tempo pra passear, que não sai de casa, que parece uma empregada, que está precisando viajar para descansar. 
Quando ela fala assim, eu fico com medo, porque ela sempre diz que se for viajar vai me deixar com uma tia minha, para tomar conta de mim, que com ela eu não vou, porque dou muito trabalho, e eu nem sei que trabalho é este que ela fala tanto.
foto - Thymonthy Becker
15º - CAPÍTULO
Eu tenho medo dela viajar com meu pai e meus irmãos e não voltar mais pra vir me buscar e eu ter que ficar morando com minha tia o resto da minha vida. Não que eu não goste da minha tia, até gosto, mas acho que ela não gosta de mim. Todas as vezes que meus pais vão à casa dessa minha tia, e me levam junto, essa minha tia fica falando para meu pai que ele devia me colocar num colégio interno. Eu já perguntei à minha professora o que era colégio interno, ela me disse que é uma escola em que a gente fica lá muitos anos, sem vir para casa. Daí o meu medo, porque minha tia só fala nisso. Mas ainda bem que meu pai sempre diz que filho tem que ficar com o pai, naquela situação. Eu não sei que situação é essa de que ele fala, mas acho que é porque eu sou menino ainda. E quando minha mãe está nervosa, ela sempre diz que eu só faço coisas erradas, que eu sou um erro, que meu pai tem que dar um jeito em mim. Acho que eu faço muita coisa errada mesmo, porque ela grita comigo o tempo todo. Eu já pedi para minha irmã pequena parar de chorar, porque toda vez que ela chora, minha mãe me xinga, dizendo ser culpa minha. Ela diz que, quando minha irmã vê minha cara feia, chora. Outras vezes, ela diz que é quando ela ouve minha voz irritante. Lá na escola, ninguém nunca disse que eu tenho cara feia e nem voz irritante. Acho que só a mãe pode dizer isto. Eu também não acho que ninguém na escola tem voz irritante. Lá todo mundo tem voz diferente, mas nenhuma acho que seja irritante. Eu nem sei o que é voz irritante. Mas minha irmãzinha chora do mesmo jeito, mesmo quando não me vê. Quando meu irmão menor quebra alguma coisa, minha mãe diz que a culpa é minha também. Se ele suja a roupa, eu sou culpado.
Eu nem gosto de estar perto dela quando chega a conta de luz. Ela começa a xingar, fala que se eu não fosse porco, a conta seria mais baixa. Acho que quem toma mais de um banho por dia é conhecido como porco. Ela e meu pai e meus irmãos, toma um banho só. Mas quando está muito quente, meu pai me deixa tomar banho de mangueira. Eu gosto, porque a água é geladinha; eu fico brincando ali como se estivesse na chuva. Mas minha mãe não deixa ficar muito tempo, porque ela diz que gasta muita água e que a água não era de graça.
16º CAPÍTULO
Meu pai sai quase todo dia, menos sábado e domingo, para trabalhar. Eu não sei onde ele trabalha, eu nunca fui lá. Eu sei que é bem longe, porque ele sempre diz que tem que ir cedo, senão vai chegar atrasado e ele não podia perder o emprego, porque não estava fácil conseguir emprego. Mas ele parece que gosta de trabalhar, pois vai todo dia sem reclamar. Quando ele fica de férias, ele fica o mês inteiro em casa. Muitas vezes eu já o ouvi dizer que já estava com saudades do serviço e que não via hora de voltar. Ele sempre dizia que ficar à toa em casa era ruim demais. Ele sempre traz dinheiro deste trabalho, e entrega para minha mãe. Meu pai deve trazer menos dinheiro que a conta de luz, porque minha mãe sempre diz que aquele dinheiro não vai dar para pagar nem as contas.
Uma vez, ouvi do meu quarto minha mãe discutindo com meu pai. No meu quarto, onde eu durmo com meu irmão pequeno, já que minha irmãzinha dorme lá com minha mãe, num berço, não tem porta, aí eu sempre ouço o meu pai discutir com minha mãe. Acho que o ouvido do meu pai dói quando minha mãe fala alto, porque ele fica pedindo para ela falar mais baixo. Toda vez que ele traz dinheiro para minha mãe, ela fica falando alto com ele à noite. Às vezes, minha irmãzinha acorda, começa a chorar, aí que minha mãe fica falando mais ainda. Às vezes, até grita com minha irmãzinha, grita com meu pai, e minha irmã não pára de chorar. Eu só consigo dormir depois que ela pára de falar. Uma vez, quando ela falava alto com meu pai, e minha irmã chorava muito, ela disse que já não bastasse seu filho, ainda tinha que criar o filho da outra. Meu pai falou para ela não falar aquilo mais, que quando ela se casou com ele, já sabia muito bem de tudo. Aí minha mãe não falava mais nada. Eu não conheço nenhuma mulher que se chama Outra, nem vi minha mãe com filho de ninguém. Ela não gosta que menino nenhum venha aqui em casa, meus colegas nem vêm, eles têm medo da minha mãe. Ela diz que menino é só para atrapalhar e fazer o que não deve e que ela não tinha paciência para ficar vigiando filho de ninguém. Que cada um cuidasse do seu filho.
foto - ?
17º - CAPÍTULO
Uma vez, quando minha irmãzinha chorava muito, minha mãe estava xingando porque ela não parava de chorar. Eu cheguei perto da minha mãe e pedi a ela para me ajudar num trabalho que a professora mandou a gente fazer. Era um trabalho de entrevista. A gente tinha que entrevistar a mãe e o pai. Como meu pai só chegava de noite, eu fui entrevistar minha mãe, senão não dava tempo de fazer o trabalho. Era sobre os dois últimos presidentes que o Brasil já teve. Eu tinha que escrever o nome deles, os anos em que eles foram presidentes, e falar cinco coisas boas que eles tinham feito para o Brasil. Era só eu escrever no papel que a professora tinha entregado pra gente. Já tinha até o espaço pra gente escrever a resposta. Minha mãe olhou para mim, pegou o papel da minha mão, rasgou o papel da professora num monte de pedaço, jogou os pedaços pela janela do quarto. Eu então falei que não podia rasgar, que tinha que ser naquele papel e que valia nota para a prova. Minha mãe então disse que tomara que eu tirasse zero, porque eu era burro mesmo, e se eu falasse com meu pai que ela rasgou o papel, eu ia apanhar muito e ia me mandar morar com minha tia. Depois, me chamou de peste e me perguntou se eu não desconfiava que naquela casa eu estava sobrando. Depois mandou eu sumir do quarto dela. 
Eu saí do quarto, pensando que a professora ia me xingar por ter perdido o papel que ela tinha me dado. E eu não tinha mais como fazer o trabalho, porque o que eu tinha que fazer estava escrito lá. E como eu ia entrevistar meu pai, se as perguntas estavam no papel que minha mãe rasgou? Eu fiquei pensando que não podia falar nada para o meu pai, senão minha mãe ia me bater. Mas o que eu ia dizer para a professora? Daí eu pensei em dizer que tinha perdido o papel, assim não falava que minha mãe tinha rasgado ele. Depois, eu fiquei pensando no que ela quis dizer com eu estar sobrando ali. Eu já ouvi muitas vezes alguém dizer que alguma coisa estava sobrando. Mas foi a primeira vez que ouvi alguém dizer isto a uma pessoa. Acho que é coisa boa, porque quando meu pai traz mais dinheiro do trabalho dele, ela fica rindo e dá graças a Deus porque vai sobrar dinheiro este mês. Quando isto acontece, ela nem briga comigo, não me xinga de burro e não reclama de nada, nem quando minha irmã fica chorando muito tempo. Eu até já pedi ao meu pai para trazer dinheiro sobrando todos os dias, assim, minha mãe ficava mais legal comigo. Mas meu pai sempre diz que não ganha muito, que a gente tinha que economizar, porque a situação não estava boa. Ele sempre me pedia para ter paciência com minha mãe, que ela era nervosa, mas que gostava muito de mim, e que ficava me xingando porque tinha que olhar três filhos, e isto era bem difícil, e que ela me xingava porque eu era o mais velho. Eu sabia que minha mãe gostava de mim, nunca imaginei o contrário, mesmo ela me xingando muito. Quando sobrava este dinheiro que meu pai trazia e minha mãe ficava contente, ela fica falando que ia comprar roupa pra ela, que as roupas dela estavam muito velhas; que ia comprar cortina para pôr na janela, roupa nova para meu irmão, que, segundo ela, estava sem roupa e que ia comprar também para minha irmãzinha. Para mim, ela nunca falava que ia comprar. Mas eu tinha muitas roupas e nem precisava que comprasse. Tem uma mulher aqui perto, que tem um filho do meu tamanho, aí quando as roupas dele ficam velhas, ela manda tudo lá pra casa, aí minha mãe diz que é para eu usar aquelas roupas todas. Eu nem importo se são velhas, eu até gosto, porque tem muitas roupas bonitas lá. As cortinas que minha mãe fala que vai comprar, ela nunca compra. No quarto e do meu pai, tem uma cortina, que, segundo a minha mãe, está velha e precisa colocar outra. No meu quarto tem é um cobertor velho na janela, que meu pai colocou para tampar o sol. Minha mãe também fica contente quando sobra algum pedaço de carne do almoço – ela diz que vai guardar para o jantar. Então, se eu estou sobrando, é porque ela me quer bem guardado. Sinal que deve mesmo gostar muito de mim, tanto quanto eu gosto dela. Talvez eu goste um pouquinho mais do meu pai, mas só um pouquinho a mais. Também gosto dos meus irmãos igual gosto do meu pai.
foto - Thymonthy Becker
18º - CAPÍTULO
Hoje, na minha escola, a professora disse que iria uma mulher falar com a gente. Que era pra gente ser educado e conversar com ela direitinho. Disse que ela iria falar sobre família, sobre a importância de não brigar com irmãos nem com os pais. Disse a minha professora, que ela falaria sobre como é bonito viver bem em família, assim como na escola e em todo lugar que a gente estivesse. Eu gosto do meu irmão menor, da minha irmã também eu gosto, mesmo quando ela chora só para minha mãe me xingar. Acho que lá em casa não tinha nada de errado e eu não me lembro de nenhum da sala reclamar de alguma coisa de ruim que acontecia em suas casas. Nunca ouvi falar de briga deles com irmãos ou com os pais. Todos os meus colegas sempre diziam que o melhor lugar para eles eram suas casas. Até a hora do recreio, esta mulher não tinha chegado ainda. Todos da sala estavam esperando ela chegar logo; assim, a gente ficava sem ter aula. Não que a gente não gostasse de aula, mas era a de matemática e esta era bem difícil para quase todos da sala. Quando voltamos do recreio, a mulher já estava na sala, junto com a nossa professora. Ela era alta e era bem bonita também, mas eu continuava achando a minha professora a mais bonita da escola. Quando todos nós ficamos sentados, foi que a nossa professora apresentou a tal mulher. Disse que ela iria conversar com a gente, e qualquer dúvida que a gente tivesse, era para perguntar a ela.
foto - Thymonthy Becker
19º - CAPÍTULO
Nossa professora disse que ia dar uma saidinha, e que era para a gente se comportar e não fazer feio diante da visita. Ela disse que voltaria bem rápido, mas só voltou, mesmo, no finalzinho da aula. Essa mulher, então, deu bom dia a todos, nós respondemos de uma vez só, que ficou até engraçado e todos riram. Ela então começou a falar e disse que tinha trazido um presentinho para todos da sala. Todos nós ficamos procurando onde ela teria colocado tantos presentes, mas ninguém conseguia ver nenhum pacote. Daí alguns colegas meus diziam que seria um lápis ou alguma caneta que deveria estar dentro da bolsa grande que ela trouxe. Algumas meninas da sala acabaram perguntando o que ela tinha trazido para dar de presente pra gente. Essa mulher, que estava sempre sorrindo, disse que era surpresa, mas que era bem gostoso. Daí todos já sabiam que seria um bombom. Porque todas as vezes que nossa professora nos dava um presente, ou porque a gente tinha se comportado o mês todo muito bem, ou porque a gente tinha tirado notas boas, ela dava um bombom para todos da sala. Essa mulher disse então que estava ali para falar da importância da família. Disse que a família é o alicerce de tudo e que era importante que fosse unida, todos se respeitando e vivendo em completa harmonia. Mas ela disse que, antes de continuar, queria saber o nome de cada um da sala e o nome dos pais também. Ela começou perguntando pela fila que fica ali perto da mesa da professora, como eu sento na última cadeira da última fila do outro lado, fui o último a responder. Ela me perguntou por que eu tinha aquele nome tão diferente e difícil de escrever e pronunciar. Eu disse que não sabia. Então ela começou a falar e eu fiquei pensando em minha família, se lá em casa a gente costuma brigar, se tem algum alicerce lá também. Eu nem mesmo sei o que quer dizer alicerce. Mas acho que lá em casa tem. Porque lembro uma vez que meu pai viu que a parede do banheiro lá em casa estava toda rachada. Meu pai disse que aquele rachado estava aumentando cada dia e ele não sabia o motivo, porque tinha feito a casa em um alicerce muito bem feito. Daí, alicerce lá em casa tem. Mas brigár, de vez em quando eu brigo com meu irmão menor. Ele vive pegando meus brinquedos e quebrando tudo. Daí eu brigo com ele. Minha mãe sempre me xinga, diz que eu to muito grande para ficar com brinquedo e que era para eu deixar meu irmão brincar com eles. Mas eu sempre gostei de guardar tudo que meu pai me deu. Ele sempre fala que se eu guardar, quando eu tiver filho, posso dar tudo para ele. Mas minha mãe fica sempre xingando, dizendo que eu tinha que passar os meus brinquedos para meu irmão, porque eu já estava muito grande para ficar brincando com carrinho e outros brinquedos que meu pai me deu. O que meu irmão mais pegava era a bola que ganhei no natal. É com ela que jogamos pelada lá fora. Eu escondo ela todo dia antes de ir para a escola, mas quando chego, já vejo ela jogada lá fora. Meu irmão sempre acha ela, brinca e nunca guarda. Aí eu vou xingar ele, minha mãe entra no meio e acaba que eu vou brincar com ele. Mas não é todo dia. Tem dia que ele não quer brincar de jeito nenhum. Aí eu brinco sozinho mesmo. Eu fiquei pensando e nem ouvi o que aquela mulher estava dizendo.
foto - Thymonthy Becker
20º - CAPÍTULO
Eu olhei para meus colegas, e todos estavam ouvindo o que a mulher dizia, ou pelo menos parecia que estavam. Nisto, a mulher perguntou se a gente estava entendo tudo que ela estava dizendo. Quem não estivesse entendendo, era para levantar a mão. Todos disseram que sim. Eu, que não sei nada que ela disse, também não levantei a mão. Mas minha professora, me olhando lá da frente, me perguntou se eu realmente tinha entendido tudo. Eu falei que sim. A professora, então, disse para a mulher que eu costumava ficar muito no mundo da lua. Todos riram quando ela falou isto. Eu fiquei sem graça, mas não me importei dela falar. Também, eu nunca fui no mundo da lua. Eu até já imaginei sendo um astronauta, quando vi um filme de viagem nas estrelas, que passou na matinê, no cinema que tem lá longe de casa. Eu até já ganhei um foguete de meu pai. Ele é pequenininho, e é um cofrinho em forma de foguete, em que eu guardo as moedinhas que meu pai me dá. Eu sei abri o foguete, daí, eu sempre tiro as moedas de lá, quando me dá vontade de chupar picolé. O filho da dona Geralina sai todo dia vendendo picolé, com uma caixa de isopor que ele pendura no pescoço. Não sei como ele aguenta ficar andando com aquela caixa o dia inteiro. Assim, quando ele passa na rua gritando, eu tiro as moedas do cofrinho e vou lá comprar o picolé. Sempre que compro para mim, tenho que deixar meu irmão chupar também, senão ele fala com minha mãe e aí ela me xinga muito. Depois, meu pai vai me dando mais moedinha e eu junto de novo. Eu coloco neste cofrinho só algumas moedas, porque eu tenho um cofre secreto, e ninguém sabe, em que eu coloco algumas moedinhas para eu tirar quando eu ficar mais grande. É no buraquinho do bidê que tem lá no banheiro. A moeda cabe certinha no buraquinho que tem lá. Eu não contei pra ninguém que guardo moedinhas ali. Nem para o meu pai.
foto - Thymonthy Becker
21º - CAPÍTULO
Nisto, a professora me chamou, perguntando se eu estava entendendo tudo direitinho. Eu apenas sorri para ela. Aí eu comecei a ouvir o que a mulher estava dizendo. Pouco tempo depois, a mulher perguntou se tinha alguém ali que brigava com a mamãe, com o papai ou os irmãos, se algum de nós ali se sentia triste em casa. Ela pediu que levantasse a mão quem quisesse falar alguma coisa. Ninguém levantou a mão. Ficou um olhando para o outro, todos rindo. Aí, a minha professora começou a falar, dizendo que não era pra gente ter vergonha de dizer. Que aquela mulher estava ali não era pra xingar ninguém. Era só queria conversar com a gente e que era importante a gente ouvir o que ela tinha para falar e que podíamos perguntar o que quiséssemos. A gente continuou olhando um para o outro, alguns rindo, até o Repete, que é um menino que senta lá trás da sala, mas do outro lado que eu sento. Ele fica sempre conversando, a professora sempre pede a ele para parar de ficar falando. Ele pára um pouquinho e depois continua. Teve uma vez que ele fez um punhado de bolinhas de papel. Da folha do caderno dele mesmo, que ele sempre arranca, quando erra alguma coisa que está escrevendo. Aí ele pegou essas bolinhas de papel e, sem que a professora visse, tocou uma na cabeça de uma menina que sentava no meio da sala. Ela olhou para trás e fez uma cara feia e pediu para pararem. A professora ouviu e perguntou o que estava havendo. Esta menina, então, disse que tinham jogado uma bolinha de papel nela. A professora perguntou ao Repete se tinha sido ele. Ele disse que sim, mas só estava brincando. O Repete, sempre que faz alguma coisa errada, ele conta que foi ele mesmo, nunca mente dizendo que foi outra pessoa ou que não foi ele. As vezes que falei isto para meu pai, ele me disse que o Repete era que estava certo mesmo. Que a gente nunca deve fazer alguma coisa errada e pôr a culpa em outra pessoa. Todos aqui da sala gostam do Repete. 
O Repete tem este apelido porque já repetiu o ano três vezes, ele sempre toma bomba, e a professora disse que, se ele não estudar muito, vai tomar bomba novamente. Foi ele que levantou a mão, para falar com essa tal mulher que estava ali. Essa mulher começou a conversar com o Repete, perguntou o nome dele e ele disse Repete. Todo mundo riu, até a professora ficou rindo. Aí, a nossa professora explicou para ela que Repete era só o apelido dele e disse o nome correto. Essa mulher perguntou quantos anos ele tinha, se tinha irmãos. Perguntou o nome dos pais dele, o que ele mais gostava de fazer quando não estava na escola. 
Repete respondia sempre rindo, às vezes olhava pra gente, outras vezes abaixava a cabeça e ficava rindo. Ele disse que gostava mesmo era de quando chegava o fim de semana e a tia dele vinha buscá-lo para ele passar o dia lá na casa dela. Ele gostava porque lá tinha pé de manga, uva do Japão, pé de mexerica e também os primos dele, que ficavam brincando com ele. Ele também falou que lá a tia dele não brigava com o tio.
foto - Thymonthy Becker
22º - CAPÍTULO
Eles ficaram conversando e eu nem estava ouvindo o que ela dizia, porque lembrei quando minha mãe disse que eu estava sobrando na-quela casa. Eu queria perguntar a essa mulher, assim que ela parasse de falar com o Repete. Mas eu estava meio com vergonha dela e da minha professora e também dos meus amigos, que poderiam rir quando eu perguntasse. Eu já estava querendo que ela parasse de falar, para eu poder perguntar se ‘sobrando’ era algo que a gente queria guardar. Mas ela não parava de falar com o Repete. Não que eu pensasse que fosse outra coisa, porque eu gosto tanto de minha mãe, do meu pai e de meus irmãos, que quero guardá-los para sempre, pois estão sobrando para mim também. Mas meu pai nunca me disse que eu estava sobrando para ele. Mas sempre me diz que me ama e que gosta muito de mim, assim como dos meus irmãos.
Demorou muito até que a mulher parou de falar e perguntou se todos tinham prestado atenção no que ela tinha conversado. Todos disseram que sim, mas eu não sei nada do que ela falou. Então ela perguntou se mais alguém queria fazer alguma pergunta. Eu fiquei na dúvida se perguntava ou não. Alguém podia rir, dizer que eu sou bobo, que não sei nada. Depois alguém podia falar com minha mãe e ela ficar com raiva por eu ter perguntado. Nisto, uma menina começou a falar que na casa dela nunca brigou com a mãe, nem o pai dela. Que quando ela chega em casa, depois do almoço, a mãe dela ensina o dever, que leva ela para passear no parque nos finais de semana. Esta menina disse que a mãe dela só a chama de princesa. 
Então a mulher perguntou se ela tinha algum irmão. Minha colega disse que não, mas que a mãe dela tinha dito que ia encomendar um irmãozinho para ela. A mulher sorriu e disse que poderia ser uma irmãzinha. Aí esta menina disse que não queria irmãzinha e sim irmãozinho. Aí as outras meninas da sala começaram a falar quase todas juntas. Algumas diziam que queriam um irmão e outras diziam que queriam irmã. Teve uma lá que disse que não queria mais nenhum, que os irmãos dela eram muito chatos. Alguns meninos começaram a falar que chatas eram as irmãs, que eram choronas e sempre quebravam os brinquedos. A professora pediu para falar um de cada vez, senão ninguém iria entender nada. Então essa mulher começou a conversar com as meninas da sala. Eu ainda estava na dúvida se perguntava ou não sobre o que minha mãe falou. Pouco tempo depois, ela acabou a conversa com as meninas. Na sala, ficaram todos conversando uns com os outros, sobre outros assuntos. Minha professora conversava com essa mulher. Eu estava só pensando no que minha mãe disse. Nisto, minha professora pediu silêncio novamente. Então, a mulher perguntou se tinha mais alguém que queria fazer alguma pergunta sobre família. Ninguém falou nada, ficamos em silêncio. Esta mulher, então, pegou uma caixa que tinha trazido com ela e começou a dar um bombom para cada um de nós. Ela foi indo de carteira em carteira, entregava o bombom e dava um beijo no rosto da gente. Alguns colegas meus, quando ela chegava perto, ficava rindo muito. Outros conversavam um pouco com ela. Como eu sentava lá atrás, na última carteira da última fila, eu seria o último pra quem ela entregaria o bombom. Então pensei que, assim que ela fosse me entregar o bombom, eu perguntaria a ela, bem baixinho, assim ninguém saberia o que eu estava perguntando. Quanto mais perto ela chegava de mim, mais eu ficava com as pernas tremendo, com medo dela. Até que ela chegou na minha carteira. Ela perguntou meu nome, eu falei, ela disse que era muito bonito meu nome. Me entregou o bombom, me deu um beijo no rosto. 
Então, com a voz custando a sair, eu disse que queria perguntar uma coisa. Ela então disse que:
– Claro, meu querido. O que quer saber?
foto - Thymonthy Becker
23º - CAPÍTULO
Eu olhei meus colegas, para ver se tinha algum olhando pra mim. Mas todos estavam conversando uns com os outros. Alguns guardavam o bombom na mochila. Minha professora estava sentada conversando com as meninas que sentam na cadeira da frente. Esta mulher então me olhou e me perguntou qual o problema, que eu podia falar que ninguém iria escutar. Acho que ela percebeu que eu estava tentando evitar que alguém ouvisse o que eu queria saber.
Então, respirei fundo e perguntei bem baixinho o que significava quando a pessoa está ‘sobrando’ na casa. A mulher sorriu, abaixou-se ao meu lado, olhou nos meus olhos, eu abaixei o olhar, de vergonha, e ela me perguntou por que eu estava dizendo aquilo. Eu, meio sem graça, disse que era por nada. Mas ela sorriu e disse que eu podia dizer o motivo. Eu então disse que podia deixar. Ela então me disse:
– Meu querido, aí depende. Se você estiver muito tempo na casa de um amiguinho, pode ser que já esteja na hora de você ir embora pra casa. Não devemos ficar muito tempo na casa dos amiguinhos, porque senão vamos atrapalhar o horário deles estudarem, tomarem banho. Por isto, a gente tem que saber a hora certa de ir embora. Às vezes, quando a mãe de algum colega seu acha que você deveria ir embora, vai dizer que você está ‘sobrando’. Mas é só uma forma de dizer.
Levantei os olhos e perguntei se ‘sobrando’ também podia ser algo que a gente quisesse guardar, algo que a gente gostasse muito. Então, eu disse que minha mãe fica sorrindo muito quando sobra dinheiro lá em casa. Ela até dá graças a Deus, dizendo que naquele mês sobrou dinheiro. Então, perguntei:
-se eu gosto da minha mãe, do meu pai e dos meus irmãos, posso dizer que eles estão ‘sobrando’ para mim?
Ela, continuando com seu sorriso, olhou dentro dos meus olhos, eu desviei o olhar, vi que alguns colegas meus já estava olhando nos dois ali conversando, vi também que a professora nos olhava lá da mesa. Então ela disse que meus olhos eram lindos. Eu fiquei com mais vergonha ainda, de cabeça baixa, depois levantei a cabeça, olhei ela nos olhos. Ela olhando nos meus, ainda sorrindo, abaixou para ficar da minha altura.
E depois disse:
– Em se tratando de pessoas, quando alguém diz que você está ‘sobrando’, é porque não quer mais você por perto, ou participando da vida desta pessoa, quando está na hora de ir embora, viver sua própria vida. Mas claro que isto é coisa de adultos que estiverem com problemas. Você é ainda uma criança linda, não deve se preocupar com isto. Você tem uma infância linda para viver, muito que aprender e tenho certeza que será um homem muito feliz. Você me parece ser uma criança muito feliz.
Eu olhei dentro dos olhos dela, ela olhou dentro dos meus.
O sinal tocou, terminando a aula.
foto - Thymonthy Becker
24º - CAPÍTULO
Divinópolis /  20 anos depois
Se você, algum dia, passar por Divinópolis, que fica bem no coração de Minas Gerais, já de longe, você poderá ver uma cidade cercada por pequenas montanhas, com um rio de águas turvas cortando-a bem ao centro, outro passando ao lado. Poderá ver algumas fábricas com suas chaminés, saindo fumaça que corta o céu. Também irá ver muitos edifícios, casas pequenas, grandes, coloridas e até sem pintura. No centro, você poderá ver ruas asfaltadas, passeios largos, carros disputando espaço com os ônibus e motocicletas apressadas passando por entre os carros. Poderá ver também, na periferia, rua descalça crianças quase sempre sem camisas, brincando na empoeirada rua, enquanto suas mães lavam a roupa no tanque quase sempre colocado no quintal. Poderá ver uma cidade arborizada, que, na época de natal, tem suas árvores repletas de pisca-pisca, nas quais o espírito natalino se faz presente. Poderá ver o relógio do Santuário, que mostra as horas em qualquer seja a direção e que, de hora em hora, nos diz que horas são. 
Poderá ver na praça da igreja matriz o pequeno museu, erguido há mais de um século. Crianças brincando no pula-pula, mesas de barzinho, algumas pessoas sentadas nos bancos, outras andando de carrinho e bicicletas, algumas jogando baralho, damas ou apenas conversa fora. Algumas pessoas lendo algum livro, outros apenas vendo o tempo passar ou esperando à hora da missa, que pontualmente começa às 19 horas. Poderá ver a sorveteria da praça, que no verão está sempre cheia. O marco do início da cidade, que substituiu o coreto. Verá os carrinhos de cachorro quente, sempre com alguma mãe comprando com o seu filho. Poderá ver também o carrinho de pipocas de doce e de sal, que geralmente se compra para as crianças, mas que os adultos acabam por comê-las também. A pizza expressa, que tem até de doce, e o vendedor de algodão doce, com seu apito para chamar as crianças, mesmo que o desejo de comer algodão doce também seja dos adultos. Aqui também você verá ruas estreitas, algumas calçadas com pedras, que chamamos de calçamento de pé-de-moleque. Ainda verá nas ruas carroças de tração animal, que ainda sobrevivem fazendo pequenos fretes. Se você vir num dia de festa religiosa, numa das muitas igrejas que aqui tem, poderá ver as barraquinhas, saborear alimentos típicos, participar das quermesses e, se for um junho, poderá até dançar quadrilha.
foto - Thymonthy Becker
25º - CAPÍTULO
Se você decidir visitar os bairros desta cidade, verá alguns com mansões imponentes, ruas bem arborizadas e pequenos edifícios. Irá ver também, bairros bem distantes do centro, alguns que meio abandonados, ruas empoeiradas, que em dias de chuva se transformam em lamaçal. Casas quase sempre iguais, sem muros que as dividam. Verá bairros bem povoados, em que quase não se vêem lotes vagos. Outros com tantas casas quanto os dedos das mãos, com ruas tomadas pela erosão. Verá que há, embora tenha o bairro industrial, muitas indústrias espalhadas por vários bairros residenciais, e que deles, já são parte da paisagem. Mas se você for ao bairro que fica além dos trilhos da ferrovia, já nos trilhos, você poderá ver um bairro bem formado, casas bonitas, pintadas, ruas asfaltadas, algumas com canteiro central. Verá um bairro todo arborizado, em que os galhos das grandes flamboyants de um lado da rua se encontram com os das do outro lado. E as árvores de plumas, plantadas no canteiro central, transformam o cinzento asfalto num tapete branco, no qual os beija-flores, inúmeros pardais e outras aves vêm buscar material para seus ninhos. Verá, no inverno, os altos pés de ipês roxos, repleto de flores que, ao caírem, agem como artistas, dando toques de mestre ao felpudo tapete branco. Verá, delineando os limites deste bairro, o rio largo, porém de águas turvas, no qual alguns pescadores ainda arriscam a pescar os poucos peixes que ali ainda sobrevivem. Verá um bairro de ruas planas, onde se pode pedalar tranqüilo uma bicicleta, o que pouco se vê por aqui.
foto - Thymonthy Becker
26º - CAPÍTULO
Se você for à última rua deste bairro, vai encontrar uma rua asfaltada, arborizada, casas novas ou velhas reformadas, pintadas de várias cores, passeio largo e sem esgoto correndo a céu aberto. Provavelmente, não verá lotes vagos entre as casas. É provável que você até veja alguma criança brincando nesta rua, talvez sozinha, talvez com irmãos ou amigos. Talvez você não veja nenhuma criança jogando bola, nem sentada embaixo de alguma árvore, nem soltando papagaios, nem brincando de pique ou mesmo andando de patins, talvez nem de bicicleta você vá ver alguma criança andando. Se você caminhar por esta rua, verá que ela tem casas apenas de um lado, do outro, apenas um largo e comprido passeio, e depois deste, apenas os trilhos da ferrovia e a mata ciliar do turvo rio que delineia o bairro. Caminhando por esta rua, que não é muito comprida, você poderá ver, no seu final, uma grande árvore, cujos galhos se lançam ao outro lado, imponente, faz uma grande sombra e como alguém que espera, fica ao final da rua com alguns de seus galhos quase tocando o chão.
foto - ?
27º - CAPÍTULO
E se você for até o final desta rua, verá que, na última casa, não há passeio, nem muro, porque este se encontra aos destroços no chão; verá que esta grandiosa árvore ainda escora um pedaço do muro que ruiu. Verá uma casa velha, abandonada, janelas quebradas, jardim coberto por mato, que até já invade o alpendre, cujo piso todo quebrado deixa-se vencer pelo capim que, em busca de vida, insiste em sair pelas frestas destas trincas que não resistem. Verá parte do telhado já no chão, e outra parte ainda resiste aos ventos e temporais.Se você passar pelo portão que está todo enferrujado, caído ao chão, chegará ao alpendre, cuja tinta branca das paredes, já está amarelada e escura, junto ao piso. Se você entrar neste alpendre, poderá ver preso com quatro pregos, um papel cuja imagem já foi apagada pelo tempo. Aproximando-se, você verá escritas com um pincel e tinta vermelha, nesta amarelada parede branca, com letras trêmulas, mal delineadas, algumas palavras quase ilegíveis, cujo tempo está se encarregando de se fazer esquecer. Mas você, ainda que com certa dificuldade, poderá ler:
foto - Thymonthy Becker
28º - CAPÍTULO
“Esta é a foto do meu filho que desapareceu em setembro de 1987, quando voltava da escola. Estava trajando uniforme escolar e tinha nove anos quando desapareceu. Sua mochila foi encontrada sob os trilhos da ferrovia, e dentro dela todos os seus cadernos, nada dela foi retirado. Se você sabe onde ele está, se você o viu, por favor, entre em contato com a gente imediatamente”.
Filho, se um dia você voltar a esta casa, saiba que procuramos você por 18 longos anos.
Seu pai ainda hoje chora todos os dias, na hora do almoço, esperando você vir arrastando sua mochila, com seu cachorrinho pulando ao seu lado. 
Todos os dias, ele vai ao galinheiro, ver os pintinhos da galinha carijó, esperando que você possa estar lá dentro com eles. 
Ele vai incansáveis vezes até os trilhos, e os percorre em todas as direções, na esperança de ver você. Percorreu várias cidades na esperança de encontrá-lo. 
Seus amigos da escola espalharam fotos suas por todo o estado, na esperança de que alguém tenha visto você. 
A rádio daqui, todos os dias, chama por você e pede a todos que ajudem a encontrá-lo. 
Mesmo não sendo meu filho de sangue, descobri que você, juntamente com seus irmãos, é o meu maior tesouro. 
Só Deus pode avaliar o quanto você tem feito falta a todos. 
Não conseguimos viver mais nesta casa, vendo sua árvore crescendo a cada dia mais.
Foi sofrido demais ver o pé de jabuticabas que você plantou, carregado de frutas, que ninguém quis provar antes de você, dói muito ver seus amigos já homens, alguns casados e com filhos.
Seus irmãos todos os dias perguntam quando você vai voltar.
Saímos daqui, pois seu pai estava sofrendo muito, já não mais suportando sentir sua falta e ter que conviver com tudo que você gostava.
Filho me perdoa, eu não sabia que era impossível viver feliz sem você.
Impossível avaliar o tamanho de minha dor.
Beijos de sua mãe, seu pai e seus irmãos, que te amam muito.
foto - Thymonthy Becker
 FIM

Esta é uma historia de ficção, qualquer semelhança com fatos, nomes, pessoas ou acontecimentos reais, terá sido uma mera coincidência.

RESPEITE A PROPRIEDADE INTELECTUAL

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

5 ESTRADAS BRASILEIRAS QUE VALE A PENA DIRIGIR POR ELAS - Viajar de carro pode ser muito bom, se for por uma dessas estradas. Confira cinco trechos que agradam tanto quanto o destino final de suas férias

CONHEÇA 05 ESTRADAS QUE VALE A PENA VOCÊ VIAJAR DE CARRO POR ELAS. Há quem diga que o importante não é o destino final, e sim o caminho até lá. Em uma viagem de carro, não costuma ser bem assim, considerando o péssimo estado do asfalto de nossas estradas, além do custos do pedágio, motoristas ruins e a falta de uma boa paisagem. Mesmo com todos esses problemas, é possível aproveitar um passeio automotivo pelo Brasil em uma das cinco estradas escolhidas pela Hertz, empresa especializada em aluguel de veículos: Confira ESTRADA REAL / MINAS GERAIS / RIO DE JANEIRO / SÃO PAULO  Também conhecida como Caminho Real, é uma das estradas mais famosas do Brasil, por ser um dos principais pontos turísticos do País. Tem 1.630 quilômetros de extensão, passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Motivos não faltam para visita-la, com um circuito de 179 cidades históricas, passando por belas paisagens formadas pelos trechos de mata atlântica. Tem até atividades fora do carro, como caminhada…

VIRGINÓPOLIS, MINAS GERAIS - Alem da festa da Jabuticaba que acontece anualmente, a cidade possui uma das maiores escadarias de igreja do mundo, com mais de 500 degraus

CONHEÇA A CIDADE DE "VIRGINÓPOLIS", MINAS GERAIS, BRASIL A cidade é regionalmente conhecida pela tradicional Festa da Jabuticaba, que ocorre anualmente em setembro. Um aspecto interessante é que, apesar da festa, a cidade não se configura como grande produtor da fruta.  Outro aspecto cultural interessante é a presença da Capela de Nossa Senhora do Patrocínio, que possui uma das maiores escadarias de igreja do mundo, com mais de 500 degraus, construídos pelos próprios moradores da cidade em mutirões realizados no fim da década de 1980.  CASARÃO NA CIDADE DE VIRGINÓPOLIS, MG(asminasgerais.com.br) CASARÃO EM VIRGINÓPOLIS, MG (asminasgerais.com.br) CENTRO DA CIDADE DE VIRGINÓPOLIS, MG (asminasgerais.com.br) PRAÇA EM VIRGINÓPOLIS, MG (asminasgerais.com.br) VIRGINÓPOLIS, MG(asminasgerais.com.br)
CASARÃO EM VIRGINÓPOLIS, MG(asminasgerais.com.br)
PRAÇA EM VIRGINÓPOLIS, MG(asminasgerais.com.br)
RUA CENTRAL DA CIDADE DE VIRGINÓPOLIS, MG(asminasgerais.com.br)
UMA DAS MAIORES ESCADARIAS …

REPRESA DE FURNAS, SÃO JOSÉ DA BARRA, MINAS GERAIS - Em 1963 fecharam o túnel que criou praias, formou cânions, inundou vilarejos mudando para sempre a história de 34 cidades mineira e formando o espetacular “Mar de Minas”

CONHEÇA A "REPRESA DE FURNAS", SÃO JOSÉ DA BARRA, MINAS GERAIS, BRASIL foto - Thymonthy Becker No dia 9 de janeiro de 1963 o túnel que desviou o curso do rio Grande para a construção da Usina de Furnas foi fechado e as águas que formaram um dos maiores reservatórios do mundo, criou praias, formou cânions e cachoeiras inundou vilarejos e mudou para sempre a história dos 34 municípios que ficam ao longo dos 1.440 km2 de extensão do Lago de Furnas. (Thymonthy Becker) A sede do município de Guapé ficou praticamente submersa, o que levou à construção de uma nova sede em local definido pela população. O distrito de São José da Barra, então pertencente a Alpinópolis e emancipado em 1994, ficou integralmente debaixo das águas e deu lugar à "Nova Barra", que a pedido do padre Ubirajara Cabral, pároco local, foi construída pela Central Elétrica de Furnas na forma de um banjo. (Thymonthy Becker) A maioria dos municípios possuía vocação agropecuária, mas com o alagamento das ár…

ITUIUTABA, MINAS GERAIS - Com vários atrativos turísticos como cachoeiras, trilhas, museu, parques. artesanato regional e a famosa cachaça artesanal

CONHEÇA A CIDADE DE "ITUIUTABA", MINAS GERAIS, BRASIL BEM VINDO A CIDADE DE ITUIUTABA, MG. PORTAL DO TRIÂNGULO MINEIRO foto - ? População estimada 2016 (1) - 103.945 Área da unidade territorial 2015 (km²) - 2.598,046 Densidade demográfica 2010 (hab/km²) - 37,40 Código do Município 3134202 Gentílico - ituiutabano Prefeito 2017 / FUED JOSE DIB ORIGEM DO NOME O nome da cidade eh de origem indígena: I - rio, TUIU ­barrento; TABA - povoação, cidade. “Cidade do rio barrento”
Gentílico: ituiutabano HISTÓRICO Ituiutaba é uma fusão de vocábulos tupis que significa "povoação do rio Tijuco". Os primitivos habitantes do município eram ameríndios, pertencentes ao grupo Gê, também chamados caiapós. Uma das tribos que deixaram fama na região foi a dos panariás, muito bem estudada por Alexandre Barbosa, de Uberaba. Por fim ela foi aldeada na atual povoação de São Francisco de Sales, às margens do Rio Grande, no vizinho município de Campina Verde. Os panariás - assinala o his…

MONUMENTO HOLGER DANSKE, DINAMARCA - A tradição diz que a estátua ganhará vida quando a Dinamarca se encontrar em grande perigo e salvará a nação

CONHEÇA O "HERÓI LENDÁRIO DA DINAMARCA - HOLGER DANSKE ", DINAMARCA 
Explorar as criptas e catacumbas do Castelo de Kronborg é uma grande experiência. Escondido no porão do castelo, você vai conhecer o dinamarquês Holger (Holger Dansk), uma imponente estátua de pedra. Holger o dinamarquês, é uma figura lendária na cultura dinamarquesa. Se a Dinamarca se encontrar em apuros, ele vai acordar e defendê-la! HOLGER DANSKE, OU HOLGER, O DINAMARQUÊS, É UM HERÓI LENDÁRIO DA DINAMARCA. A PRIMEIRA REFERÊNCIA QUE TEMOS SOBRE A SUA EXISTÊNCIA APARECE EM ANTIGOS POEMAS FRANCESES, DE MEADOS DO SÉCULO XI. DE ACORDO COM A LENDA, ERA FILHO DE GODOFREDO, REI DA DINAMARCA. O SEU FILHO FOI MORTO POR CARLOS, O JOVEM, FILHO DE CARLOS MAGNO; EM BUSCA DE VINGANÇA, PROCUROU-O E MATOU-O. SÓ POR POUCO O IMPEDIRAM DE MATAR O PRÓPRIO CARLOS MAGNO. RESISTIU A CARLOS MAGNO DURANTE SETE ANOS, MAS FEZ A PAZ PARA LUTAR AO LADO DELE CONTRA OS SARRACENOS. DURANTE ESSA BATALHA MATOU O GIGANTE BREHUS. OS BARALHOS …

PONTE NOVA, MINAS GERAIS - No circuito turístico Montanhas e Fé da Estrada Real e Rota Imperial

CONHEÇA A CIDADE DE "PONTE NOVA", MINAS GERAIS, BRASIL Foto - Ronaldo Fernandes PARQUE MUNICIPAL NATURAL "TANCREDO NEVES" EM PONTE NOVA, MG
Foto - Isabella Ottoni
PONTE DA BARRINHA EM PONTE NOVA, MG
Foto - Ronaldo Fernandes
RIO PIRANGA EM PONTE NOVA, MG
Foto - Isabella Ottoni 
SEDE DA FAZENDA SANTA HELENA EM PONTE NOVA, MG
Foto - Ronaldo Fernandes
USINA SANTA HELENA EM PONTE NOVA, MG
Foto - Isabella Ottoni
VISTA GERAL DA CIDADE DE PONTE NOVA, MG
Foto - Ronaldo Fernandes
PONTE DE FERRO EM PONTE NOVA, MG
Foto - Ronaldo Fernandes
BEM VINDO A CIDADE DE PONTE NOVA. TERRA NATAL DE REINALDO - ÍDOLO DO CLUBE ATLÉTICO MINEIRO E DA DUPLA SERTANEJA VICTOR E LÉO
foto - ?
População estimada 2016 (1) - 60.188
Área da unidade territorial 2015 (km²) - 470,643
Densidade demográfica 2010 (hab/km²) - 121,94
Código do Município 3152105
Gentílico - ponte-novense
Prefeito 2017 / WAGNER MOL GUIMARÃES
ORIGEM DO NOME
A SEGUNDA metade do século XVIII, uma comissão incumbida oficialmente de abrir u…

CARRANCAS, MINAS GERAIS - Um pequeno paraíso conhecido como Terra das Cachoeiras pois possui mais de 120 quedas d'água na Estrada Real. Considerada um dos novos pólos de Ecoturismo, é um lugar ideal para a prática de Montain Bike, Trekking e outros esportes que lhe propiciam o contato com a natureza. Tem o grande poço da esmeralda, além das grutas da toca e da cortina, ainda pode-se observar pinturas rupestres e um escorregador com cerca de dez metros que termina com um divertido mergulho.

CONHEÇA A CIDADE DE "CARRANCAS", MINAS GERAIS, BRASIL

MUITO BEM VINDO AO PARAÍSO. BEM VINDO A CARRANCAS. MINAS EH ISTO E MUITO MAIS. imagem "?" Com mais de 50 cachoeiras, a cidade está voltada para o ecoturismo – suas belas paisagens frequentemente servem de cenário para novelas. Há quedas d’água de fácil acesso, mas as mais bonitas ficam escondidas na mata fechada, aonde só se chega por trilhas (que devem ser percorridas com a ajuda de guia). Entre novembro e março, a chuva torna as cachoeiras perigosas. A maioria das pousadas está próxima de grutas e cachoeiras, e muitas têm piscinas naturais. Foto - ?
POÇO DO CORAÇÃO
O acesso é tranquilo: pegue a Estrada para Itutinga, entre à esquerda após a primeira ponte para chegar ao Complexo da Toca. O carro fica na portaria, e você segue a trilha até o para o escorregador (é bom ponto para banho, ao lado da Gruta da Toca). A partir dele, suba margeando o rio: há vários poços e pequenas quedas até a principal atração local, a …

BOM JARDIM DE MINAS, MINAS GERAIS - Típica cidade mineira, com povo hospitaleiro, de clima ameno e muito aconchegante, traz no bojo de sua historia uma origem bucólica e religiosa com inúmeras atrações turísticas

CONHEÇA A CIDADE DE "BOM JARDIM DE MINAS", MINAS GERAIS, BRASIL Foto - Thymonthy Becker  BEM VINDO A CIDADE DE BOM JARDIM DE MINAS. PORTAL DA SERRA DA MANTIQUEIRA foto - Thymonthy Becker População estimada 2016 (1) - 6.648 Área da unidade territorial 2015 (km²) - 412,021 Densidade demográfica 2010 (hab/km²) - 15,78 Código do Município 3107505 Gentílico - bom-jardinense Prefeito 2017 / SERGIO MARTINS ORIGEM DO NOME O TOPÔNIMO ORIGINOU-SE DO NOME DA FAZENDA BOM JARDIM, PIONEIRA DA COMUNIDADE, E DO BELO "JARDIM" NELA CONSTRUÍDO PELOS SEUS PROPRIETÁRIOS. Bom Jardim de Minas Minas Gerais - MG HISTÓRICO O território onde se acha localizado o município, foi habitado por silvícolas de diversas tribos não identificados devidamente. Em 1770, Manoel Arriaga de Oliveira, sua mulher e seis filhos, chegaram à região, fundaram uma colônia que chamaram Campo Vermelho, tornando-se os primeiros moradores do lugar. O núcleo sofreu vários ataques dos índiso, sendo morto o filho do fundad…

PRACUÚBA, AMAPÁ - Com grande potencial turístico com suas grandes áreas de florestas, áreas inundáveis e múltiplos ambientes pesqueiros

CONHEÇA A CIDADE DE "PRACUÚBA", AMAPÁ, BRASIL No Estado do Amapá, o Município de Pracuúba, apresenta condições favoráveis à implantação de projetos do segmento turístico, não só por possui um dos maiores patrimônios naturais, praticamente intocados, mas por reunir uma síntese de ecossistemas nativos da Amazônia.  O governo do estado visa à implementação de projetos através das políticas públicas que tenham o cunho da viabilidade social, cultural, econômica e ambiental da localidade, para possibilitar o desenvolvimento turístico através de seu potencial e primar pela sustentabilidade no município. (Internet) Pracuúba que tem um grande potencial turístico, de condições técnicas, organizacionais e gerenciais para o desenvolvimento estrutural de atividades turística na localidade. E visa também descentralizar as ações de planejamento, de coordenação, de execução e de acompanhamento avaliados pelos órgãos responsáveis, motivando os segmentos organizados e a comunidade do municípi…

SERRA DO NAVIO, AMAPÁ - A História da Serra do Navio remonta aos anos 1950. A região era rica em manganês e outros minérios. Por isso, a brasileira ICOMI, com sede em Belo Horizonte e atuação em Minas Gerais, foi escolhida para explorar o minério e construir a vila operária, que daria origem à cidade de Serra do Navio. Cada vila tinha 330 casas, prédios coletivos (escolas, hospitais, refeitórios), abrigando até 1.500 pessoas, entre trabalhadores e familiares. Tinha ruas largas, postes de concreto para a fiação elétrica e telefônica, calçadas, parques, clubes com piscina, quadras esportivas, restaurante e lanchonete, drenagem de águas das chuvas e tratamento de água e esgoto. Todas as casas tinham mais de 90m² e contavam com saneamento e energia elétrica, proveniente de geradores da ICOMI.

CONHEÇA A CIDADE DE "SERRA DO NAVIO", AMAPÁ, BRASIL CONHEÇA A FAMOSA "LAGOA AZUL" DE SERRA DO NAVIO, AP A história da Lagoa Azul se mistura à criação da Serra do Navio e à atividade de exploração na década de 1950 A Amazônia é conhecida pelos rios, igarapés e cachoeiras. Mas, a maioria das pessoas nem imaginam que aqui existam lagoas de águas azul turquesa. A 208 quilômetros de Macapá, capital do Amapá, fica a Lagoa Azul, um paraíso que nasceu de uma mina abandonada. O lugar fica próximo à Vila Serra do Navio, cidade criada na década de 1950 para abrigar os trabalhadores de uma empresa de mineração. A lagoa azul e o passado da história da Serra do Navio estão entrelaçados. De acordo com a prefeitura da cidade, a cor marcante da lagoa, em tom azul anil, acontece por conta dos minérios da região especialmente o carbonato de manganês. O lugar era uma mineração. Hoje é possível chegar até lá através de trilhas ou de carro. A região é cercada por uma floresta tropical. O…